1. Uma ilha que nem sempre foi Das Flores

  2. Um lugar de experiências pioneiras

  3. A Hospedaria da Ilha das Flores

  4. Experiências da imigração

  5. Outros usos da Hospedaria em princípios do século XX

  6. A Ilha como presídio de revolucionários e revoltosos dos anos 1930

  7. A II Guerra Mundial e os anos 1950

  8. Presídio durante o Regime Militar

  9. A Tropa de Reforço dos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil e o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores

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Uma ilha que nem sempre foi Das Flores

Espaço que precede a celebrada Hospedaria, a Ilha das Flores, e as demais que hoje abrigam o comando da Tropa de Reforço, deixou marcas em várias fontes, em especial na cartografia produzida nos três últimos séculos.

O arquipélago, que hoje está sob jurisdição da Marinha, é formado pelas Ilhas das Flores, do Carvalho, do Engenho, Ananás e Mexingueira. As duas primeiras foram unidas entre si e ao continente em 1985, no processo de aterramento da região para a construção do trecho da BR 101 que corta o município de São Gonçalo. Estas, enquanto elementos naturais compõem a paisagem local desde o período da formação geológica que configurou o litoral brasileiro. Entretanto, o arquipélago só passou a ser representado nos mapas que identificavam a Baía de Guanabara, a partir do século XVIII.

Segundo Alfredo Moreira Pinto, uma carta topográfica de 1710 a denominava Santo Antônio (PINTO, 1896, 28). Por volta de 1770, o Plano de Manuel Vieira Leão registra nomes diferentes. A Ilha das Flores é nomeada como Ilha do Martins, Ananás é a de Fora; a do Carvalho é a da Semana; e a do Engenho é a de Alexandre Vidal. (LEÃO, 1770)

Em princípios do século XIX, essas quatro ilhas foram representadas sem constar nomeação nos mapas de Robert Blachford (BLACHFORD, 1808) e de William Hewett (HEWETT, 1817). Em 1817, no Plano da Cidade do Rio de Janeiro , de José Fernandes Portugal, onde a Ilha das Flores aparece como Meruhi, a Ananás é a Redonda e a do Carvalho não é identificada (PORTUGAL, 1817). O Plano de Pallière, de 1823, representa apenas três delas com outros nomes: a Ilha das Flores é do Marim 1; Ananás é Redonda; e do Carvalho é da Semana (PALIÈRE, 1823). A diferença desta para o Plano de M. Barral é que, além da mesma identificação fixada nestes três, aparecem a Mexingueira, nomeada de Vidal, e a do Engenho com este nome (BARRAL, 1829)

Além da cartografia, outra importante fonte de informações são as escrituras de compra e venda que registram as mudanças de propriedade ao longo do século XIX.

Em princípios do século XIX, a Ilha das Flores pertencia a Delfina Felicidade do Nascimento Flores e seria denominada de Santo Antônio. É possível que o seu nome atual decorra dessa proprietária, pois o local deveria ser conhecido como a “ilha da Dona Flores” e com o passar do tempo ficou Ilha das Flores. Em 1834, após a criação da Província do Rio de Janeiro, provavelmente por alguma dívida da proprietária, a ilha passou ao tesouro provincial. Apregoada publicamente em 17 de agosto, em “praça de Juízo de Feitos ”, foi arrematada por Maria do Leo Antunes (ESCRITURA, 1957a).

A fixação da nomenclatura atual se deu a partir de meados do século XIX. A Planta hidrográfica do Visconde de Lamare, de 1847, representa as cinco ilhas, sendo que apenas a do Carvalho aparece como Ajudante. Flores, Ananás e Engenho aparecem com esses nomes e a Mexingueira não é nomeada (LAMARE, 1847).

Em 10 de junho de 1857, Francisco José de Brito, procurador de Maria Antunes, concretizou a venda da Ilha das Flores para o Conselheiro e Senador José Ignácio Silveira da Motta por 4 contos e 700 mil reis (ESCRITURA, 1957b). Cinco anos depois, em 25 de janeiro de 1862, o senador adquiriu as ilhas Ananás e Mexingueira ao major João Manoel da Silva, constituindo seu arquipélago particular na Baía de Guanabara (ESCRITURA, 1957a).

A Bay of Rio Janeiro , de 1885, editada pelo Naval Oceanographic Office, dos EUA, registrou as cinco ilhas, sendo que as do Engenho e Ananás aparecem com estes nomes, das Flores e Mexingueira não são nomeadas e a do Carvalho é a do Ajudante (ESTADOS, 1885). Quadro semelhante consta no Mappa da província do Rio de Janeiro , de 1887, de José C. de Carvalho. As únicas ilhas que não aparecem com os nomes atuais são Mexingueira (Vidal) e a do Carvalho (Ajudante) (CARVALHO, 1887).

Em 1908, na carta da Bahia do Rio de Janeiro , da Secção da Hydrographia da Repartição da Carta Marítima, todas as ilhas aparecem com seus nomes atuais, à exceção de Mexingueira, que é denominada Ilha do Cachorro (BRASIL, 1908). Interessante nesta carta é que foi mandada fazer pelo barão de Jaceguay, filho do senador Silveira da Motta. Jaceguay viveu na Ilha das Flores com o pai e deveria conhecer a nomenclatura das três que pertenciam ao seu genitor.

Possivelmente para as comemorações do primeiro centenário do país, o Serviço Geográfico Militar editou o mapa da Bahia de Guanabara onde aparecem todas as ilhas com a nomenclatura atual (BRASIL, 1922). A partir de então, as cartas seguem esse padrão.

1 Em decorrência do costumeiro hábito do uso de abreviaturas nos documentos e mapas lusos desde o século XVI, acreditamos que Marim seja a abreviatura de Martins ou corruptela de Mariz ou Marins.