1. Uma ilha que nem sempre foi Das Flores

  2. Um lugar de experiências pioneiras

  3. A Hospedaria da Ilha das Flores

  4. Experiências da imigração

  5. Outros usos da Hospedaria em princípios do século XX

  6. A Ilha como presídio de revolucionários e revoltosos dos anos 1930

  7. A II Guerra Mundial e os anos 1950

  8. Presídio durante o Regime Militar

  9. A Tropa de Reforço dos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil e o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores

Download em PDF dos textos
 
Um lugar de experiências pioneiras

Ao adquirir a Ilha das Flores, Silveira da Motta tornou-a um lugar de experimentos agrícolas e de piscicultura.

Nascido em 1811 na província de Goiás, bacharelou-se em direito pela Faculdade de Direito de São Paulo onde exerceu o magistério e da qual chegou a ser diretor. Entre 1842 e 1850, foi deputado provincial por Goiás. Nos cinco anos seguintes (1850-1855), foi eleito deputado geral por São Paulo. Em 1855, foi escolhido senador por sua província natal, mandato exercido até a proclamação da República. Já senador do Império, Silveira da Motta adquiriu as ilhas das Flores (1857), Ananás e Mexingueira (1862). Segundo Barbosa Lima Sobrinho, a Ilha das Flores era sua residência e foi onde o futuro Barão de Jaceguay, Artur Silveira da Motta, vivera parte de sua juventude. (SOBRINHO, 1955)

Seu pioneirismo levou-o a “ defender teses incorporadas ao mundo jurídico brasileiro ” (NUNES, 2009: 02) e a ser o autor da lei que fixava a proibição da venda de escravos sob pregão e exposição pública e da venda em separado de famílias escravas, o que o leva a ser considerado hoje o pioneiro da legislação de proteção da infância

No campo produtivo também tinha idéias arrojadas. A Comissão do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura – responsável pela avaliação das experiências de piscicultura que ali se realizavam – informava- informava que “ o terreno da ilha está, em grande parte, inculto; a porção, porém, aproveitada em jardim, horta, pomares e roças mostra a feracidade natural, pelo desenvolvimento e viço do arvoredo e plantações ” (IMPERIAL, 1876: 03). Apesar disso, constatava-se a produtividade pelo elevado número de árvores frutíferas – havia 800 videiras carregadas –, leguminosas na horta e plantava-se mandioca para produção da fécula. Além do engenho de mandioca, a ilha contava ainda com galinheiros e currais.

Além da casa de morada do Senador, que continha um anexo para a recepção de hóspedes, a ilha possuía armazéns destinados à guarda de instrumentos de trabalho, barcos etc.; e casas de residência dos empregados dispersas no local.

Desenvolvia-se ali a criação intensiva de peixes em seis tanques que comportavam até doze mil exemplares. A referida Comissão do Ministério da Agricultura, tendo em vista a crescente demanda de alimentos, gerada pelo crescimento populacional das duas capitais – a Corte e a cidade de Niterói, então capital da província do Rio de Janeiro – avaliava positivamente a experiência que ali se desenvolvia. (IMPERIAL, 1876: 09). Essa experiência deveria ensejar o governo a adquirir a Ilha e desenvolver outros centros produtores de pescado.

Após a visita daquela Comissão, iniciaram-se as negociações entre o senador e o governo do Império para a venda da ilha. Em 14 de novembro de 1878, Silveira da Mota ofereceu uma festa ao ministério liberal do Visconde de Sinimbu, na qual foi acertada a venda da ilha por 500 contos de réis. O jornal O Fluminense, órgão da imprensa ligado ao Partido Conservador, oposição àquele ministério, no dia seguinte, firmava uma ácida crítica a essa negociação: “ Consta-nos que ontem em certa ilha da freguesia de São Gonçalo (houve) uma lauta festança a que estiveram quase todos os ministros e que ao tinir dos copos se assentou a compra da mesma ilha por quinhentos contos de reis. Pobre Brasil, a que estado chegastes! ” (O FLUMINENSE, 1878)

A conclusão da transação ocorreu em 1883 quando, em 16 de janeiro, compareceram, na Diretoria Geral do Contencioso do Tesouro Nacional, o Senador Silveira da Motta e o Conselheiro João Cardoso de Menezes e Souza, procurador fiscal do Tesouro, concretizando a venda do arquipélago por 170 contos de réis (ESCRITURA, 1957c). A partir de então a hospedaria foi oficializada. Entretanto, há indício que de suas atividades se iniciaram em 1879 quando foi aberto o primeiro livro de registro de imigrantes, localizado no Arquivo Nacional.