1. Uma ilha que nem sempre foi Das Flores

  2. Um lugar de experiências pioneiras

  3. A Hospedaria da Ilha das Flores

  4. Experiências da imigração

  5. Outros usos da Hospedaria em princípios do século XX

  6. A Ilha como presídio de revolucionários e revoltosos dos anos 1930

  7. A II Guerra Mundial e os anos 1950

  8. Presídio durante o Regime Militar

  9. A Tropa de Reforço dos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil e o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores

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A Hospedaria da Ilha das Flores

Os debates sobre a vinda de imigrantes precedeu nossa independência político-administrativa de Portugal. Incentivados pelos tratados anglo-portugueses de 1810, os dirigentes políticos de então combinaram uma política imigrantista como resposta às medidas de restrição ao tráfico. A diminuição da entrada de africanos deveria corresponder ao aumento do número de imigrantes. Uma das primeiras iniciativas, malograda por sinal, foi a fixação de colonos suíços na região serrana do Rio de Janeiro (NICOULIN, 1995). A partir de então, a política imigrantista tomou novos rumos. O ano de 1850 marcou a supressão do tráfico atlântico de escravos africanos para o Brasil. Diferentes interesses entram em cena e o debate sobre qual seria o melhor imigrante para o país ganhou as páginas da imprensa, as sessões legislativas e os salões onde intelectuais divergiam sobre o tema. Características étnicas e culturais eram relevantes ao se defender os grupos que colaborariam para o almejado progresso.

O imigrante era considerado elemento primordial no processo de transição do trabalho escravo para o livre. O importante era que não faltassem braços para a grande lavoura, sustentáculo da política econômica do período. Por outro lado, projetava-se, nesse grupo, uma ação civilizadora ao se defender um processo de miscigenação que levasse ao embranquecimento da população brasileira (SCHWARCZ, 2000).

O crescimento populacional na Europa, durante o século XIX, gerou um excedente que foi absorvido, em grande parte, pela América. Entre 1820 e 1914 migraram para o continente americano aproximadamente 50 milhões de pessoas. Depois dos Estados Unidos, do Canadá e da Argentina, o Brasil foi o principal destino desses imigrantes (PAIVA; MOURA, 2008:13)

O século XIX foi marcado por duas formas de ingresso da mão de obra imigrante no Brasil. Um significativo grupo participou da imigração “dirigida”, ou seja, foram arregimentados na Europa com destino às propriedades agro-exportadoras. Muitos tinham suas passagens pagas e contratos pré-fixados com estes proprietários. Outra forma era a imigração espontânea estimulada pela administração imperial, pois a esses se destinavam terras públicas que serviriam como modelo para a iniciativa privada.

Desta forma, a imigração visava incorporar um contingente de mão de obra capacitada tanto em atividades agrícolas como em ofícios urbanos. Esse perfil só foi alterado no pós II Guerra Mundial, quando passaram a ingressar refugiados do conflito.

A criação da hospedaria integrava o conjunto de políticas do Estado Imperial de fomento à imigração. Na ausência de hospedarias oficiais, o governo subsidiava particulares, como uma no Baldeador, Niterói (BRASIL, 1882: 222). Em 1876, foi criada a Inspetoria Geral de Terras e Colonização.

O relatório do Ministério da Agricultura referente a 1883 definia o imigrante como todo passageiro de 3ª classe dos navios que aportavam no Rio de Janeiro e consignava a obrigatoriedade de sua passagem pela ilha (BRASIL, 1883: 214).

Seguindo o modelo da Ilha das Flores foram criadas instituições congêneres em outras partes do Brasil: Campinas, Florianópolis (Saco do Padre Inácio), Espírito Santo (Pinheiral, Pedra d'Água e Alfredo Chaves), Rio Grande do Sul (do Cristal), Pernambuco (Jaqueira, em Recife), no Amazonas e no Pará (KUSHNIR, 2008: 61-62).

Ao longo de sua existência, a Hospedaria da Ilha das Flores esteve a cargo de diversos órgãos federais. Inicialmente, a imigração era de responsabilidade do Ministério de Agricultura ao qual a Inspetoria estava associada. No ano de 1931, passou a ser subordinada ao Departamento Nacional de Povoamento, órgão que pertencia ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Em 1938, este órgão é substituído pelo Departamento Nacional de Imigração. Em 1954, com a Lei nº 2.163, é criado o INIC (Instituto Nacional de Imigração e Colonização), a fim de substituir o Departamento e com o intuito de unificar a direção imigratória em face de sua amplitude. Este órgão passou a ser subordinado ao Ministério da Agricultura. Em 1962, o INIC foi incorporado pela SUPRA (Superintendência de Política e Reforma Agrária), também subordinada ao Ministério de Agricultura. Com a Lei 4.504, de 30/11/1964, a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores passou a ser responsabilidade do INDA (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário). Dois anos depois, a deliberação nº 233, de 19/04/66, extingue a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores.

2 Segundo J. F. Carneiro, nesse período ingressaram no país 550.657 pessoas (Carneiro, 1950)