1. Uma ilha que nem sempre foi Das Flores

  2. Um lugar de experiências pioneiras

  3. A Hospedaria da Ilha das Flores

  4. Experiências da imigração

  5. Outros usos da Hospedaria em princípios do século XX

  6. A Ilha como presídio de revolucionários e revoltosos dos anos 1930

  7. A II Guerra Mundial e os anos 1950

  8. Presídio durante o Regime Militar

  9. A Tropa de Reforço dos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil e o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores

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A Ilha como presídio de revolucionários e revoltosos dos anos 1930

Os desdobramentos dos movimentos que se desenrolaram nos anos de 1920 levaram ao que se convencionou chamar de Revolução de 1930. Colocavam-se em xeque a hegemonia paulista e as práticas políticas vigentes na I República. Instaurado o novo governo, que se queria provisório, os antigos presidentes de Estados foram substituídos por interventores, em maior parte tenentes dos movimentos de 1920. No caso paulista foi nomeado o pernambucano João Alberto Lins de Barros, que desagradava às elites locais (DICIONÁRIO, 2001: 5006-5012).

Em nove de julho de 1932, os paulistas deflagraram um movimento que se queria legalista, defendendo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A Revolução Constitucionalista colocou os paulistas contra o governo provisório e se estendeu por cerca de três meses até o armistício do estado bandeirante. Durante o conflito, em 17 de agosto de 1932, às 22h, o então diretor da Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, coronel Valêncio de Oliveira Xavier, recebeu um telefonema de seus superiores do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, ordenando a preparação do espaço para que, no dia seguinte, recebesse uma leva de prisioneiros paulistas. Em menos de três meses – entre 18 de agosto e 31 de outubro – passaram pelo presídio 3780 combatentes, segundo Agenor Lopes de Oliveira, diretor do hospital prisional (OLIVEIRA, 1933).

Três anos depois, 1935, a ilha voltou a dividir seu espaço para ser usada como presídio para internar os prisioneiros da Revolta Comunista, ocorrida em novembro daquele ano. Sargentos, cabos e soldados de bases em Natal, Recife e Rio de Janeiro sublevaram-se contra o governo Vargas visando instaurar um governo popular revolucionário, democrático-burguês e antiimperialista para posterior implementação do comunismo no país. Debelado o movimento, o governo instaurou o estado de sítio, passou a concentrar amplos poderes e, em 1936, sentenciou 1420 pessoas pelo envolvimento com a Revolta (DICIONÁRIO, 2001: 4988-4991).

Sabemos que a Ilha foi utilizada como cárcere de envolvidos com este movimento, pois localizamos o rascunho de uma carta escrita por Aloysio Costa no verso de um atestado de vacinação usado pelo Serviço Médico da Hospedaria da Ilha das Flores (COSTA, 1935). Aloysio Costa, nascido em 17 de outubro de 1908, em Nazareth, Bahia, transferiu-se para o Rio de Janeiro e obteve colocação na Estrada de Ferro Central do Brasil. Em 1931, foi incorporado ao serviço militar e combateu os constitucionalistas paulistas no ano seguinte. Concluído o combate, cessam suas atividades militares (CADERNETA, s/d). Segundo sua filha, Neusa Costa, em 1935 o combatente realizava um curso na Praia Vermelha visando uma promoção quando foi acusado de envolvimento com o levante comunista. Provavelmente tratava-se do 3º Regimento de Infantaria, núcleo do levante no Rio de Janeiro. Dois terços da tropa que aí servia aderiram à Revolta que se iniciou no dia 26 de novembro. No dia seguinte, o general Eurico Gaspar Dutra cercou e bombardeou o quartel, vitimando 20 pessoas e forçando a rendição dos revoltosos. Aloysio Costa foi preso e enviado à Ilha das Flores, onde redigiu uma carta nunca enviada para a família, mas guardada por todos esses anos entre seus pertences e localizada pela filha após sua morte.