1. Uma ilha que nem sempre foi Das Flores

  2. Um lugar de experiências pioneiras

  3. A Hospedaria da Ilha das Flores

  4. Experiências da imigração

  5. Outros usos da Hospedaria em princípios do século XX

  6. A Ilha como presídio de revolucionários e revoltosos dos anos 1930

  7. A II Guerra Mundial e os anos 1950

  8. Presídio durante o Regime Militar

  9. A Tropa de Reforço dos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil e o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores

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Presídio durante o Regime Militar

Cessadas as atividades da Hospedaria da Ilha das Flores, em 1966, suas dependências foram utilizadas para a instalação do CENATRE (Centro Nacional de Treinamento), subordinado ao Departamento de Cooperativismo e Extensão Rural do INDA (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário), visando promover cursos para pessoal técnico, administrativo e líderes rurais. Ao final do ano de 1968, foi criado o Destacamento Especial da Ilha das Flores, administrado pela Marinha, com o objetivo de receber presos encaminhados pelo 1º Distrito Naval. A ilha passou a ser um presídio de reclusão de opositores ao regime militar, instaurado após o golpe civil-militar de 1964. O presídio utilizou as antigas instalações da Hospedaria que anteriormente serviram para atividades congêneres: a ala norte. Um dos alojamentos, repleto de quartos de ambos os lados, foi transformado em carceragem. No final deste pavilhão ficavam a ala feminina e as celas dos presos incomunicáveis. Esta se voltava para São Gonçalo. A ala masculina voltava-se para a baía de Guanabara.

Ao chegar à ilha os presos eram encaminhados às celas dos incomunicáveis. Após um período de isolamento, eram transferidos para as celas dos comunicáveis. Estas comportavam de quatro a seis pessoas. A partir deste momento, tinham acesso a livros, jornais, toca-discos, banho de sol e práticas esportivas.

O grupo estudado por Maria Fernanda Scleza permaneceu detido na Ilha das Flores entre 1969 e princípios de 1971. Grande parte dos entrevistados – oito no total – deixou o presídio nas negociações de troca pelo embaixador suíço sequestrado em dezembro de 1970. No mesmo período foram sequestrados, além do caso citado, o embaixador norte-americano, o cônsul japonês e o embaixador da Alemanha Ocidental. O caso do embaixador suíço foi o último do período. Foi promovido pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e possibilitou a libertação de 70 prisioneiros que partiram para o exílio no Chile na noite de 13 para 14 de janeiro de 1971.

Experiência marcante na configuração da memória e da identidade desse grupo levou-os a “instituir” o Partido da Ilha das Flores. Esse partido informal reúne-se anualmente, em 13 de janeiro, desde que retornaram do exílio na década de 1980. Além de relembrar as histórias de resistência ao regime militar, celebram a amizade cultivada a partir dessas experiências comuns.